Impeachment / Câmara dos Deputados

/ coletivo - 16 de maio de 2016

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O texto a seguir é, sobretudo, uma reflexão interna do coletivo que colocamos aqui como pensamentos abertos, acerca de assuntos que movem nossa produção:

Há quase três anos, o país passava por um momento chave da sua história recente: as Manifestações de Junho de 2013. Para as gerações que como nós nasceram nos meados da década de 80, tratava-se de uma experiência política e social inédita. Relatamos aqui algumas impressões sobre o acontecido, ainda envoltos pela poeira densa que havia subido ao fim do processo. Se naquele momento não era possível mensurar quais seriam as consequências em curso, hoje, 35 meses e 80 centavos passados, podemos afirmar que o seu maior legado não foi precisamente a revogação da tarifa, mas sim a retomada das mobilizações de massa no país e a política como pauta central no cotidiano.

Se por um lado as Manifestações de Junho tiveram início com grupos de esquerda, historicamente engajados em causa sociais e com currículo extenso de reivindicações, o seu final se deu com uma vasta gama de outros espectros políticos, de pautas pulverizadas (quando não divergentes) e com repertórios discrepantes. O que havia de consenso não eram os 20 centavos, mas sim um sentimento de crise de representatividade, seja na escala municipal, estadual ou federal. Para muitos, a revogação da tarifa não significou o ganho de uma reivindicação, mas sim o sentimento de empoderamento perante o sistema político e a ideia potente de que a pressão das ruas traz resultados.

O sucesso das Manifestações de Junho se deu, em larga medida, justamente pela adesão em peso de uma parcela de pessoas com repertório político cru, ou até mesmo como a primeira experiência política, para além do ritual das eleições. Muitas vezes auto proclamados “nem de direita nem de esquerda”, muito embora tivessem pouco conhecimento histórico do que de fato isso significava, se diziam sobretudo lutar pelo País. Ali, naquele momento, haviam diversas potências e narrativas a serem descobertas e construídas. Mas esta iniciação política tardia não veio acompanhada de um debate amplo e uma consequente maturação desta experiência. Neste sentido, é emblemático a sétima e última manifestação, ocorrida após a revogação do aumento da passagem, na qual germinava uma polarização profunda entre grupos com interesses distintos. Também ali, o impeachment já existia. Não porque era um horizonte possível, afinal, mal se desconfiava do resultado das eleições de 2014, mas porque havia uma insatisfação generalizada procurando endereço.

O desabafo do motorista de ônibus, o debate acalorado dos estudantes, a conversa de mesa de bar, o resmungo na fila do pão, a conjuntura levantada por “especialistas”, o bate boca nas redes sociais, as farpas trocadas em encontros de família, a indignação dos moradores de rua. O legado foi transversal, para o bem ou para o mal. Na ressaca de Junho de 2013 se viu uma proliferação de passeatas, quase que diárias, reivindicando temas de toda sorte, com maior ou menor adesão. Neste momento havia uma disputa ainda pouco consciente sobre o sentido das Manifestações de Junho.

De um lado, havia uma parte da esquerda que procurava manter o fôlego adquirido, mas também prezava por uma certa “pureza” no movimento, rechaçando a inundação de pautas de direita ou de cunho vago, como o combate à corrupção. Junho significou uma conquista inestimável e era momento de intensificar ganhos sociais. Este sentimento de coesão, ou pelo menos esperança de coesão da esquerda pode não ter sido fundamental, mas provavelmente teve seu papel para a reeleição de Dilma em 2014. Por outro lado, a direita viu uma oportunidade singular de canalizar a insatisfação das ruas e direcioná-la para um destino conveniente. Nada mais óbvio, sobretudo após a derrota apertada de 2014, que essa insatisfação desaguasse no governo federal, como se fossem os únicos responsáveis por toda crise de representatividade.

Esta queda de braço seria novamente decidida por aqueles que se diziam “nem de esquerda e nem de direita”.
Se de certa forma a esquerda não conseguiu, seja por opção ou incompetência, dialogar com uma massa que possuía uma bagagem política bruta ou mal formulada, deixou o campo aberto para que tomasse forma todo o ressentimento dessa população que não se sentia parte dos processos políticos até então e que projetaram nos partidos toda sua insatisfação política. O discurso “anti-partido”, e sobretudo anti-PT, foi amplamente abraçado.
A política como assunto central no cotidiano foi pautada convenientemente pelos grandes meios de comunicação e seus respectivos interesses, mas pouco amadurecida entre a sociedade. Mais do que diálogo, o que houve de 2013 pra cá foram verdadeiros arranca-rabos que salientaram sobretudo as diferenças entre as ideias de país e sociedade existentes. Não houve espaço para uma troca qualificada de ideias, a fomentação verdadeira de um projeto de país, qualquer que seja. Fomos capazes de reduzir o debate num binômio tragicômico de coxinhas e petralhas por uma incompreensão imensa — de todos os envolvidos — do que poderia nos unir.

Assim como o germe do impeachment existia no âmago das Manifestações de Junho, o naufrágio do Governo talvez já estivesse inscrito nas condições da reeleição. O presente ressignifica o passado. A pressão das ruas habilmente canalizada ganharia força exponencial e o impedimento de exercício da presidência, no início considerado brincadeira de mau gosto, tornou-se uma realidade palpável, exigida, reivindicada e clamada.

Esta publicação, Impeachment – Câmara dos Deputados, transcreve na íntegra o discurso de todos os congressistas da sessão 091, do dia 17/04/16, a fatídica sessão que aprovou o prosseguimento do processo de impedimento da presidenta, na Câmara dos Deputados.
O conteúdo fala por si só. O registro é uma oportunidade de observar a pobreza do discurso político dentro do seu próprio sistema, onde deveria ser o seu núcleo-duro, um dos pilares do tripé democrático. Mas o que talvez espante mais é a constatação de que se nas ruas o debate é imaturo, raso, individualista, no plenário pouco se difere. O quanto a figura de nossos representantes, que julgamos não nos representar, refletem nossas sombras?

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A História está em constante disputa. O processo iniciado em Junho de 2013 não se esgotou. E se o impeachment é conseqüência fatal dele, as manifestações dos estudantes contra o fechamento das Escolas Estaduais iniciadas em São Paulo, também o são. Talvez ali tenhamos algo a aprender. E também ali novos sentidos em disputa para o futuro. São dois lados da mesma moeda. Duas narrativas que emergiram.
Qualquer superação do cenário atual só poderá se dar uma vez que haja consciência plena de que novos atores estão no jogo político e de que temos falhado em dialogar uns com os outros. Para uma democracia recente como a nossa e com uma cultura política precária, é mais do que necessário aprender com os erros. Ressignificar o impeachment é um dever coletivo.

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